He loves me not… he loves me

Essas últimas semanas não tenho tido muito tempo para escrever, por isso pra começar o mês vou postar uma tradução e análise feita para a pós na matéria de linguística. O trecho é de um livro chamado “He loves me not… he loves me” escrito por uma atriz irlandesa chamada Claudia Carroll. O livro conta de maneira adocicada a história de uma família de mulheres tentando manter a pose após a fuga do patriarca com todo o dinheiro da casa e pior: levando consigo a jovem empregada do estábulo na enorme fazenda onde morava com mulher e filhas. A história é bem legal, principalmente pelo fato de que há muitas palavras com formas bem particulares de escrita, características da cultura irlandesa. Vale a pena pra quem gosta de inglês dar uma olhadinha no original e conferir uma senhorinha que trabalha para a família falando um inglês bem esquisito, pricipalmente para aqueles que estão mais acostumados com o linguajar do Tio Sam.

Ah! Não posso esquecer de agradeçer a ‘chata’ da minha amiga Jakelline por ter indicado incessantemente esse livro e praticamente ter me ‘cobrado’ a tradução. Valeu Jakie – rendeu um 10,0!

Segue introdução do trabalho, original e tradução de um trecho do primeiro capítulo e também uma breve análise de algumas escolhas feitas na tradução:

Introdução

Pouco se sabe sobre Claudia Carroll no Brasil. Atriz, essa irlandesa divide seu tempo entre as gravações da série de TV Fair City e a paixão por escrever. Em seu romance de estréia He loves me not… He loves me, ela conta a história de Lucasta e suas filhas, Portia e Daisy. Depois de abandonadas por Lorde Jack Davenport – marido, pai e apostador compulsivo que fugira levando o pouco dinheiro que ainda restava à família e também a jovem Sarah, outrora ajudante de cavalaria da família – elas recebem a oportunidade de ter a casa da família há gerações, a em estado deplorável Davenport Hall, transformada em um set de filmagens para uma produção cinematográfica americana.

Através de um narrador onisciente, os fatos são contados de modo a dar espaço a longas discrições, acentuando ainda mais a intimidade do narrador em relação aos personagens.

De forma a preservar tal familiaridade, procurou-se utilizar uma metodologia de tradução por vezes livre, mas em sua maior parte idiomática, a fim de aproximar o leitor ao máximo do universo do texto.

Da mesma maneira, ainda com relação à metodologia escolhida, tal tradução foi feita também pensando em um leitorado similar nas duas línguas: um público não muito preocupado com a profundidade psicológica dos personagens, mas sim com uma narrativa compreensiva em sua totalidade e de agradável leitura.


HE LOVES ME NOT… HE LOVES ME

Chapter One

OK, so it wasn’t a Friday, but it was still the thirteenth. If Portia had never been superstitious before, she was now. As she stood in the freezing Drawing Room of her family’s ancestral home(1), Davenport Hall, with her mother, wailing in the background, she found herself idly wondering, the way you do (2b) in times of crisis, could this really be happening?

‘It can’t be true, my darling. It simply can’t be true,’ howled Lucasta for the umpteenth(1) time that morning. ‘How could he just bolt off into the blue without a by-you-leave? We were married for thirty-six years and to think that your father has abandoned me …ME! I was debutante of the year in nineteen sixty-six and everyone said your father was the luckiest man alive to have landed me …’ And at the thought of her bygone youth and beauty, she spiraled off into a fresh bout of hysterics. ‘I know I told him to bugger off, but how was I to know the bastard would actually leave? The one time in his worthless buggery life he actually did what I asked!’

Portia sighed deeply as she went to console her mother, yet again.

The unseasonable March(1) sunshine streamed through the enormous bay window which dominated the room, bathing mother and daughter with warmth, which neither of them felt inside. To an outsider, they looked like an odd(2a) pair. Lucasta, Lady Davenport, although only in her mid-fifties, looked a great deal older, a legacy of her fondness for one gin and tonic too many. Her waist-length hair, which had been so admired during that debutante year, was now gray and matted(2a) and certainly hadn’t seen the inside of a hairdresser’s since the moon landings.  Dressed in her trademark willies, moth-eaten navy jacket and layer upon layer of heavy wool jumpers, she looked like she’d just mugged a homeless person and then ripped the clothes off their back. Yet, even though her red face was all puffy and swollen from crying, you could still tell(2b) that, in her youth, she would have been considered ‘a handsome woman’.

Portia, her eldest daughter, was another story. Tall, thin and pale, with her light brown hair tied neatly behind her neck, she was as white as a ghost today. Not from shock, but from worry, sheer worry.

Mal-me-quer, bem-me-quer

Capítulo 1

TUDO BEM que não era uma sexta-feira, mas ainda sim era dia 13. Se Portia nunca fora supersticiosa antes, agora ela era. Na sala de estar congelante de Davenport Hall, casa da família há gerações(1), com sua mãe aos prantos como pano de fundo, ela se viu ao ócio pensando, do jeito que se faz(2b) em épocas de crise, será que isso podia mesmo estar acontecendo?

“Não pode ser verdade, minha querida. Simplesmente não pode ser verdade”, berrou Lucasta pela milésima(1) vez naquela manhã. “Como ele pôde sair correndo assim sem explicação nem permissão alguma? Estávamos casados há trinta e seis anos e todo mundo dizia que seu pai era o homem mais sortudo do mundo por ter me fisgado…” E no pensamento de uma época distante de juventude e beleza, ela entrou frenética em uma crise de histeria. “Sei que eu mandei aquele desgraçado pra fora daqui, mas como eu poderia saber que ele realmente iria? Foi a única vez naquela vida sodomita sem valor que ele realmente fez o que eu pedi!”

Portia suspirou fundo ao ir consolar sua mãe, mais uma vez.

O sol, mais forte do que o de costume em Março(1), tomava mãe e filha com o calor de seus raios pela enorme janela da sacada, calor que nenhuma delas sentia por dentro. Aos olhos de um estranho, elas pareciam não ter muito em comum(2a). Lucasta, Lady Davenport, mesmo sendo uma mulher de meia-idade aparentava bem mais velha, herança de seu fascínio por muito gim-tônica. Os cabelos até a cintura, tão admirados naquele ano de debutante, agora um emaranhado de fios brancos e sem brilho(2a), não viam um cabeleireiro desde que o homem pisou na lua pela primeira vez(1). Com sapatos artesanais e uma jaqueta azul-marinho toda furada e vários suéteres de lã, vestidos uns por cima dos outros, ela parecia ter acabado de assaltar um mendigo e lhe roubado as roupas. Mesmo assim, com o rosto inchado feito um balão de tanto chorar, ainda era possível dizer(2b) que quando jovem ela podia mesmo ter sido considerada uma mulher “bem-apessoada”.

Portia, sua filha mais velha, era um caso a parte. Alta, magra e pálida, cabelos cor de mel amarrados na altura do pescoço em um meio rabo-de-cavalo, ela estava mais branca que um fantasma hoje, não de medo, mas de preocupação… pura preocupação.

  1. 1. Efeito Equivalente

Ao longo do original, é possível perceber a utilização de longas descrições das personagens e cenários, a fim de envolver o leitor de maneira plena no plano textual.

A fim de preservar esta característica, observou-se a necessidade de paráfrases mais longas – equivalentes descritivos – com intuito de abranger todas as idéias expressas no original apenas com uma palavra (acestral, unseasonable, landings). O único momento em que foi possível transpor o sentido do original em apenas um termo foi passagem umpteenth, traduzida por milésima.

  1. 2. Modulação: mudança de perspectiva

Observou-se dois tipos de modulação em alguns trechos da tradução:

  1. Eufemismos: para o termo odd, a tradução por não (…) comum foi preferível ao invés de estranho, e para a palavra matted, curiosamente, foi possível compensar na tradução suas duas acepções – primeiramente emaranhado e, em seguida, o eufemismo sem brilho para suavizar o sentido de opaco.
  2. Mudança de voz: Como sabemos, em inglês o pronome you algumas vezes é utilizado não somente para indicar 2ª pessoa do singular ou plural. Nos trechos destacados, optou-se pela tradução impessoal desse pronome, a fim de considerar os fatos narrados pertinentes não só aos personagens, mas sim à sociedade de modo geral.
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